Páginas

Um retorno aos meus silêncios... nem tão verdes agora!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Voo


Voo

― Não, não foi bem assim que aconteceu... ― Lia olha para um ponto qualquer da jaqueta cinza do homem a sua frente. Os olhos claros de Lia ainda não estavam prontos para encarar os escuros de Marcelo. ― É claro que me importei, que se pudesse...
― Se pudesse?!? Diz na minha cara ‘se pudesse’? ― Ele procura o maço de cigarros nos bolsos. ― Então, me diz, não podia por quê???
― Não podia, simplesmente não podia. ― Lia se encolhe quando Marcelo se afasta mais uma vez.
― Vou embora, ok? ― Marcelo tira a mochila preta das costas e joga na direção de Lia. Ele vê a bolsa atingir o braço da moça e escorregar no vestido azul, indo direto ao chão.
― Não! ― Lia sequer olha para a bolsa. ― Eu preciso falar...
― Eu quero ouvir, cadela! Preciso! ― O ponto qualquer da jaqueta cinza afasta-se mais um pouco. Lia se encolhe novamente quando ele grita. ― E então???
― Marcelo― Lia dá mais um passo e se apóia na pequena mureta. O ar é gelado no oitavo andar do edifício em construção e, às vezes, uma brisa mais forte balança os cabelos castanhos da moça. ― Não precisa ser assim, Marcelo. Eu até podia dizer onde escondi, mas acho que não vou... ― Lia, por um momento, esqueceu do perigo e buscou os olhos escuros. Foi fatal! ― Foi por amor, sabia? ― O grito pretendido não passou de um sussurro desafinado. ― Eu jamais machucaria ela! Não percebe? ― Os dedos de Lia agarram mais forte a mureta. ― Eu só queria o teu amor ― Lia grita as últimas palavras. ― queria ser tua!!!

 O corpo magro da moça tem as costas arqueadas. ― Eu nunca a machucaria, não vê? Ela me ama, eu jamais a decepcionaria. ― Lia passa a outra mão no rosto. O rímel preto marca as bochechas pálidas. ― Ela nunca saiu de casa. Está no sótão...  ― Marcelo se aproxima de Lia e faz um gesto com a mão.
― Pare! ― Lia levanta o braço no mesmo momento em que ouve a sirene na frente do edifício. ― Não se aproxime, Marcelo. ― Ela traz a perna na altura da mureta e ri. ― Estávamos brincando de Rapunzel... a das tranças, sabe?
― Sei, sim ― Marcelo pára.
― Fique aí! ― Lia joga a perna para fora. A brisa se transforma, aos poucos, em vento. ― Não conhece tua filha... ― Lia senta e olha para baixo. A bolsa de couro de um lado da mureta e o vazio de outro. ― Ela não quis ser a princesa Rapunzel, quis ser a bruxa... e eu fui a princesa. ― Lia procura os olhos de Marcelo. ― Por um momento, eu fui princesa, sabia? ― Um soluço seco. ― Sabe qual é a grande diferença entre bruxas e princesas? As últimas não sabem voar!!! ― Lia, então, joga-se no vácuo.

A.Yunes