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Um retorno aos meus silêncios... nem tão verdes agora!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sorriso


Sorriso
Os pingos da chuva de maio molham a vidraça.
Os olhos da mulher, deitada na cama de solteiro, se desviam para o relógio. Um minuto longo e o despertador soa. Ela permanece deitada, fecha os olhos e finge dormir. Dois minutos e o despertador cessa. A mãe abre a porta do quarto, e chama baixinho: Carmem!
A mulher sorri e abre os olhos. Mas a porta está fechada e o despertador novamente soa.
O sorriso se esvanece e o dia se torna mais cinza.

...

Carmem levanta-se da cama e vai até o banheiro. Embaixo do espelho oval, numa pequena prateleira, os potes de creme, base e pó convivem placidamente. Ela lava o rosto, e o seca com a toalha de pano. As olheiras são mais visíveis, o cabelo mais ralo. Abre, então, o pote azulado e esfrega pacientemente cada um dos olhos, as maçãs, o pescoço. Depois da base clara, o pó compacto dá a textura final e faz desaparecer as rugas, as marcas. A sombra e o batom claro dão o toque final à máscara. Carmem olha novamente para o espelho, mas não sorri.

...

Carmem volta ao quarto. Pega, em uma das cadeiras, o vestido cinza, bem passado e limpo, e o veste devagar. Ajeita os cabelos e está pronta. Aproxima-se da cama e retira os lençois floridos, que depois de dobrados são depositados com cuidado na mesma cadeira onde estava o vestido. Caminha até o armário, e retira outro jogo de lençol, também florido, num tom mais escuro. Busca também a colcha azul marinho e a estende por cima do conjunto. Depois de um suspiro, ela cola um meio sorriso na face. Puxa a gaveta do criadomudo, pega o pote branco e abre o frasco. Um, dois, três... no fim, o gole d’água.

Carmem busca os sapatos pretos, mas não os calça, e se deita na cama. Em cima da televisão, quase caído para trás, o relógio de plástico transparente, num tom rosado, marca 6:45h.

Ela larga os sapatos no chão e permanece quieta, as mãos cruzadas, os pés separados, olhando o teto. Vê o mofo que sobe lentamente no canto, perto da janela pequena. Lá fora, ainda chove, os pingos continuam brigando por seus lugares no vidro liso.

Um espasmo contorce o corpo de Carmem mais um, e outro, e outro e mais um e ela sente uma dor horrível que lhe atravessa o ventre e chega até o peito. Neste instante, o despertador toca, são 7:00h.

A mulher fecha os olhos e, então, ouve a porta se abrir.
A mãe da mulher chama baixinho: Carmem!
E Carmem finalmente sorri.

A.Yunes