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Um retorno aos meus silêncios... nem tão verdes agora!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Mundo de Patrícia

“Contei as horas, os minutos, os segundos, os últimos instantes, aquele ‘um pouquinho antes do antes', sabe?... algo quase imperceptível e ainda temível, eu contei e recontei e lembrei de um poema que falava de amor, e de paixão e de tesão e eu ainda contei as horas,  os momentos, instantes e também lembrei de uma frase, uma só, meio que pela metade, ela falava de caráter, de bons modos e de bondade... e foi aí que eu ri, mas ainda contei cada minuto, cada pensamento turvo, e a música quase gritou agonia e eu contei os segundos de alegria... nos dias...  Contei as horas, os minutos, os segundos, os últimos instantes e foi aí que ganhei o mundo.”  (O Mundo de Patrícia)

PATRÍCIA

A moça sente o cheiro do café antes mesmo de acordar completamente. Joga longe as cobertas e se levanta. "Que horas seriam?", pensa enquanto pega um jeans e um blusão no armário rosa que cobre uma das paredes do quarto.
— Patrícia? — A mãe grita no início da escada. — São quase oito! Vais te atrasar, filha!
— Já vou! — responde enquanto abre uma das gavetas da penteadeira, também rosa. Pega um conjunto de lingerie vermelho e uma meia calça cor da pele. Hesita, antes de fechar a gaveta, tirando também um par de meias de algodão brancas. Os tênis estavam embaixo da cama. Abre a porta do meio do guarda-roupas e entra no banheiro.
Dez minutos tempos, ela sai já vestida, com a escova de cabo de prata na mão, e para na frente do espelho oval, que fica ao lado da janela. Começa a pentear os cabelos loiros, que, devido ao tempo, não puderam ser lavados. Quando eles ficam brilhantes, vai até a penteadeira e abre uma caixinha de música em forma de coração. Os acordes desafinados de Love Story soam pelo quarto. Ela pega dois anéis de ouro e fecha o porta-jóias antes de acabar a música.
— Patrícia! — A mãe grita de novo.
— Já estou indo! — responde mais uma vez, enquanto os olhos azuis procuram algum fio fora do lugar. Mais uma escovada... estava pronta!
A mãe já esperava com a mesa posta, com biscoitos integrais e uma torrada, mesmo sabendo que ela não comia nada pela manhã. Os cadernos organizados dentro da pasta azul e a bolsa de lona na cadeira ao lado da que sentaria. Tomou o café puro.
— Vens almoçar, filha? — pergunta com cuidado — Teu pai vai buscar peixe, claro, se der para...
Patrícia olha para a mãe e sente pena.
— Não! — responde com um sorriso para amenizar a recusa. — Não venho para o almoço! — diz já levantando e abrindo o zíper lateral da bolsa de lona. Antes de sair, deixa duas notas de cinqüenta reais na mesa.

A. Yunes