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Um retorno aos meus silêncios... nem tão verdes agora!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A mulher e o espelho

A mulher e o espelho

Rasgada ao meio
arrancada
Quebrada
a alquimia

de um lado, mentira
de outro, maldade
no meio, inocência
lá fora, verdade

Riscada com lápis
brilha o diamante
a folha bem leve
divide-se em duas

Revelado o coração
Partido em cacos
pedaços de vidro
esparramados

de um lado, solidão 
de outro, magia
no meio, ilusão
lá fora, a sina.

Dêh


domingo, 17 de outubro de 2010

Twitte... ando

não tenho mais nada a perder, tenho alguns perdões a pedir... orgulho? não, pra quê? perdi tudo quando se foi a poesia...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ando

Ando por trilhas escuras
Sombrias e nuas
Sem inspiração

Sinuosos, quietos
Os caminhos
Desenhados na pedra

Preta e branca
A paisagem agreste

Ando por ruas vazias
Silenciosas
Cinzentas

Transborda o veneno
Chuva fina molha tudo
Escorre pelo vidro

Lá, na lápide
Durmo o pesadelo
Mantenho a tez tranquila

Serena e quase viva.


Dhenova

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Mais alguns castelos...


E, mais uma vez, os castelos rosas que ficaram cinzas e desabaram estão sendo reconstruídos num lindo tom azul.
         Eu já não grito mais e não choro. Sou só um ente que passa pela vida sem tocá-la, sem senti-la. Nada é igual... nada é igual a ninguém. Enquanto ninguém é importante, nada vai ser igual. Mas ninguém não é importante e nada... nada nunca existiu. Foi só uma lembrança. Um holograma. Talhado a ferro e a fogo. Como pode isso? Não pode. Mas nada pode. Nada pode tudo.
         Eu não deliro mais. A utopia acabou. E a rosa vermelha ganhou companhia. Agora, são duas. Proteção em dobro, mas continuo triste, sem nada, nem ninguém, embora não quisesse mais ninguém.
         Alguém me disse que queria alçar voo. Não me surpreendi, na realidade, esperava que isso acontecesse. O que fazer? O destino decide por nós. Sempre decide.
         Eu não sou mais uma desvairada, uma louca que busca a perfeição. Ela não existe. Você não existe. Eu não existo. Somos todos hologramas. Porém, mais uma vez, o tempo  parou para que eu descesse à terra e eu visse(vi) você, você me visse(viu). E só. Mais do que isso, seria especulação.
 A.Yunes

De Liberdade (fragmento)


O sol brilhava em todo o esplendor matutino, e o mar continuava batendo as ondas na areia e as gaivotas ainda a gritar. Porém a tranquilidade e a beleza do lugar tinham sido afetadas. Na beira da praia, várias pessoas quebravam o encanto da paisagem, os murmúrios sobrepujavam os dos pássaros.
A paz transparecia no semblante como se um grande peso lhe tivesse sido arrancado dos ombros. Era a única coisa que parecia fazer parte do todo: o corpo nu da moça... sentada na areia... finalmente livre.

A.Yunes

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Elementos


E os castelos cor-de-rosa que eram cinzas foram destruídos. Um a um despencaram das bases. Não sobrou pedra inteira. Nenhuma para contar o que houve. Ninguém apareceu e sumiu, deixou vestígios da destruição, mas alguém que nunca será ninguém reconstruiu o que tinha sido destruído. E ele, não quer castelos, só uma casinha comum e espera, à parte, por uma decisão.
A vida é regida pela paixão, eu rodo rodo rodo e grito, uma desvairada que ri e chora e olha o anel na estante que ri também, ri, ri, ri, ri de mim assim como o velho gordo que decide tudo por nós, simples mortais, nós que amamos e perdemos e perdemos e amamos de novo. Nós que não perdemos as esperanças, culpados de espírito, cobaias deste jogo de horror. Baixemos a cabeça para ele e nos deixemos levar!
Enquanto isso, eu sou água que corre na sanga de pedra, sou água fria, gelada, que corro e não paro, arrastando folhas... e galhos. Onde iniciou? Não sei, não pergunte, aceite, só, sem mistificação. A corrida é mais forte, o chão falta. Despenco no abismo.
E viro vento, vento forte que queria destruir aquela árvore verde. Não quero mais, quero só passar por entre os ramos, imperceptível. O rumo mudou. Aquele sorriso já não brilha e o sol se escondeu. É noite e as estrelas não trazem um nome. Formam sim, o rosto de alguém, que nunca será ninguém, porque ninguém não existe mais. Mas esse alguém está longe, me deixou sozinha nessa noite. Volte alguém! Eu grito. Eu preciso de ti! Ele não escuta, está de costas para mim. Eu, que ainda sou vento. Então mudo de direção e, nessa mudança brusca, faço redemoinho e arraso o que estava de pé.
Tu me encontras perdida no sul e agora sou fogo. Queimo, destruo, aqueço. Aqueles tambores ecoam, as batidas cadenciadas, rápidas, tão fortes quanto a do coração, o meu, quando sinto que estás dentro de mim. Eu te quero! Grito de novo. Eu te adoro! Mas não ouço tuas batidas. Então, para chamar a atenção, me faço maior e milhares de fagulhas se desprendem. Te machuco. E foges do ardor, vais curar as feridas em outro lugar, não aqui, não comigo. E choro, choro muito e me torno água outra vez.
Terra? Algum dia, talvez, só terra...
Hoje, no entanto, vivo no ciclo fatal daqueles que para sentir necessitam perder.
A.Yunes

Voo


Voo

― Não, não foi bem assim que aconteceu... ― Lia olha para um ponto qualquer da jaqueta cinza do homem a sua frente. Os olhos claros de Lia ainda não estavam prontos para encarar os escuros de Marcelo. ― É claro que me importei, que se pudesse...
― Se pudesse?!? Diz na minha cara ‘se pudesse’? ― Ele procura o maço de cigarros nos bolsos. ― Então, me diz, não podia por quê???
― Não podia, simplesmente não podia. ― Lia se encolhe quando Marcelo se afasta mais uma vez.
― Vou embora, ok? ― Marcelo tira a mochila preta das costas e joga na direção de Lia. Ele vê a bolsa atingir o braço da moça e escorregar no vestido azul, indo direto ao chão.
― Não! ― Lia sequer olha para a bolsa. ― Eu preciso falar...
― Eu quero ouvir, cadela! Preciso! ― O ponto qualquer da jaqueta cinza afasta-se mais um pouco. Lia se encolhe novamente quando ele grita. ― E então???
― Marcelo― Lia dá mais um passo e se apóia na pequena mureta. O ar é gelado no oitavo andar do edifício em construção e, às vezes, uma brisa mais forte balança os cabelos castanhos da moça. ― Não precisa ser assim, Marcelo. Eu até podia dizer onde escondi, mas acho que não vou... ― Lia, por um momento, esqueceu do perigo e buscou os olhos escuros. Foi fatal! ― Foi por amor, sabia? ― O grito pretendido não passou de um sussurro desafinado. ― Eu jamais machucaria ela! Não percebe? ― Os dedos de Lia agarram mais forte a mureta. ― Eu só queria o teu amor ― Lia grita as últimas palavras. ― queria ser tua!!!

 O corpo magro da moça tem as costas arqueadas. ― Eu nunca a machucaria, não vê? Ela me ama, eu jamais a decepcionaria. ― Lia passa a outra mão no rosto. O rímel preto marca as bochechas pálidas. ― Ela nunca saiu de casa. Está no sótão...  ― Marcelo se aproxima de Lia e faz um gesto com a mão.
― Pare! ― Lia levanta o braço no mesmo momento em que ouve a sirene na frente do edifício. ― Não se aproxime, Marcelo. ― Ela traz a perna na altura da mureta e ri. ― Estávamos brincando de Rapunzel... a das tranças, sabe?
― Sei, sim ― Marcelo pára.
― Fique aí! ― Lia joga a perna para fora. A brisa se transforma, aos poucos, em vento. ― Não conhece tua filha... ― Lia senta e olha para baixo. A bolsa de couro de um lado da mureta e o vazio de outro. ― Ela não quis ser a princesa Rapunzel, quis ser a bruxa... e eu fui a princesa. ― Lia procura os olhos de Marcelo. ― Por um momento, eu fui princesa, sabia? ― Um soluço seco. ― Sabe qual é a grande diferença entre bruxas e princesas? As últimas não sabem voar!!! ― Lia, então, joga-se no vácuo.

A.Yunes

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Passeio pelo âmago

Foi o vômito mais verde
o que tirei de mim
veio do ventre
do âmago

chegou ao estômago
congelou o coração
atravessou o peito
subiu pela garganta
estourou os ouvidos
dilacerou a alma
veio sem dó ou gemido
saiu pelos olhos
pelo nariz
sufocou a voz

desenhou no corpo
outro tormento
profunda calma
a estranha apatia
o silêncio ainda verde

e a mesma agonia.


Dhenova

O Mundo de Patrícia

“Contei as horas, os minutos, os segundos, os últimos instantes, aquele ‘um pouquinho antes do antes', sabe?... algo quase imperceptível e ainda temível, eu contei e recontei e lembrei de um poema que falava de amor, e de paixão e de tesão e eu ainda contei as horas,  os momentos, instantes e também lembrei de uma frase, uma só, meio que pela metade, ela falava de caráter, de bons modos e de bondade... e foi aí que eu ri, mas ainda contei cada minuto, cada pensamento turvo, e a música quase gritou agonia e eu contei os segundos de alegria... nos dias...  Contei as horas, os minutos, os segundos, os últimos instantes e foi aí que ganhei o mundo.”  (O Mundo de Patrícia)

PATRÍCIA

A moça sente o cheiro do café antes mesmo de acordar completamente. Joga longe as cobertas e se levanta. "Que horas seriam?", pensa enquanto pega um jeans e um blusão no armário rosa que cobre uma das paredes do quarto.
— Patrícia? — A mãe grita no início da escada. — São quase oito! Vais te atrasar, filha!
— Já vou! — responde enquanto abre uma das gavetas da penteadeira, também rosa. Pega um conjunto de lingerie vermelho e uma meia calça cor da pele. Hesita, antes de fechar a gaveta, tirando também um par de meias de algodão brancas. Os tênis estavam embaixo da cama. Abre a porta do meio do guarda-roupas e entra no banheiro.
Dez minutos tempos, ela sai já vestida, com a escova de cabo de prata na mão, e para na frente do espelho oval, que fica ao lado da janela. Começa a pentear os cabelos loiros, que, devido ao tempo, não puderam ser lavados. Quando eles ficam brilhantes, vai até a penteadeira e abre uma caixinha de música em forma de coração. Os acordes desafinados de Love Story soam pelo quarto. Ela pega dois anéis de ouro e fecha o porta-jóias antes de acabar a música.
— Patrícia! — A mãe grita de novo.
— Já estou indo! — responde mais uma vez, enquanto os olhos azuis procuram algum fio fora do lugar. Mais uma escovada... estava pronta!
A mãe já esperava com a mesa posta, com biscoitos integrais e uma torrada, mesmo sabendo que ela não comia nada pela manhã. Os cadernos organizados dentro da pasta azul e a bolsa de lona na cadeira ao lado da que sentaria. Tomou o café puro.
— Vens almoçar, filha? — pergunta com cuidado — Teu pai vai buscar peixe, claro, se der para...
Patrícia olha para a mãe e sente pena.
— Não! — responde com um sorriso para amenizar a recusa. — Não venho para o almoço! — diz já levantando e abrindo o zíper lateral da bolsa de lona. Antes de sair, deixa duas notas de cinqüenta reais na mesa.

A. Yunes

Sorriso


Sorriso
Os pingos da chuva de maio molham a vidraça.
Os olhos da mulher, deitada na cama de solteiro, se desviam para o relógio. Um minuto longo e o despertador soa. Ela permanece deitada, fecha os olhos e finge dormir. Dois minutos e o despertador cessa. A mãe abre a porta do quarto, e chama baixinho: Carmem!
A mulher sorri e abre os olhos. Mas a porta está fechada e o despertador novamente soa.
O sorriso se esvanece e o dia se torna mais cinza.

...

Carmem levanta-se da cama e vai até o banheiro. Embaixo do espelho oval, numa pequena prateleira, os potes de creme, base e pó convivem placidamente. Ela lava o rosto, e o seca com a toalha de pano. As olheiras são mais visíveis, o cabelo mais ralo. Abre, então, o pote azulado e esfrega pacientemente cada um dos olhos, as maçãs, o pescoço. Depois da base clara, o pó compacto dá a textura final e faz desaparecer as rugas, as marcas. A sombra e o batom claro dão o toque final à máscara. Carmem olha novamente para o espelho, mas não sorri.

...

Carmem volta ao quarto. Pega, em uma das cadeiras, o vestido cinza, bem passado e limpo, e o veste devagar. Ajeita os cabelos e está pronta. Aproxima-se da cama e retira os lençois floridos, que depois de dobrados são depositados com cuidado na mesma cadeira onde estava o vestido. Caminha até o armário, e retira outro jogo de lençol, também florido, num tom mais escuro. Busca também a colcha azul marinho e a estende por cima do conjunto. Depois de um suspiro, ela cola um meio sorriso na face. Puxa a gaveta do criadomudo, pega o pote branco e abre o frasco. Um, dois, três... no fim, o gole d’água.

Carmem busca os sapatos pretos, mas não os calça, e se deita na cama. Em cima da televisão, quase caído para trás, o relógio de plástico transparente, num tom rosado, marca 6:45h.

Ela larga os sapatos no chão e permanece quieta, as mãos cruzadas, os pés separados, olhando o teto. Vê o mofo que sobe lentamente no canto, perto da janela pequena. Lá fora, ainda chove, os pingos continuam brigando por seus lugares no vidro liso.

Um espasmo contorce o corpo de Carmem mais um, e outro, e outro e mais um e ela sente uma dor horrível que lhe atravessa o ventre e chega até o peito. Neste instante, o despertador toca, são 7:00h.

A mulher fecha os olhos e, então, ouve a porta se abrir.
A mãe da mulher chama baixinho: Carmem!
E Carmem finalmente sorri.

A.Yunes

Musk


Musk

─ Denise, traz a toalha? ─ A voz aguda de Flávia ecoa da banheira, alcança a porta e chega até o quarto de casal. ─ Quero a cor-de-rosa.
            No quarto, Denise tem o vestido levantado... o joelho quase lhe encosta no rosto, o pé balança... Os braços, agarrados por uma das mãos do homem, estão presos à parede. Os seios nus roçam a camisa dele no vai e vem... ao sobe e desce ... ─ Já vou. ─ A voz de Denise sai abafada.
            ─ Está, mas não demore. ─ Flávia deita a cabeça e aproxima a água do queixo. Os olhos não piscam. Ficam parados. Olhando o nada. ─ Está frio aqui... Jacques já chegou?
            Denise sente o ir e vir, a respiração apressada do homem... a respiração entrecortada dela... a perna quase não agüentando o peso... então, balbucia. ─ Ainda não.
            ─ Não ouvi! ─ Grita Flávia, levantando o pescoço, e respingando água no rosto. ─ Fale alto!
            A boca do homem morde o pescoço de Denise e, depois, procura os lábios. Denise foge dos dentes e sente o calor crescendo, subindo-lhe nas entranhas... e, então, quando não vai mais agüentar... grita: ─ Não!
            ─ Sou cega, menina, não surda. ─ Flávia coloca a ponta do indicador para fora da água morna, sente a diferença da temperatura, então, fecha os olhos. A luz da janela colorida reflete o brilho de uma lágrima que escorre e cai na água. Uma pequena onda se forma, depois uma segunda, uma terceira... ─ Traga logo a toalha!
            Denise sente toda a energia do homem... sente que ele vai explodir dentro dela e sussurra: ─ Não... ─ A energia passa para as mãos de Denise e logo explode... indo parar na parede, na perna dela, no chão... Ela, então, fala alto e claro, desvencilhando-se do homem. ─ Já vou.
            ─ Tudo bem. ─ O rosto de Flávia está sereno quando Denise entra no banheiro. ─ Jacques já chegou?
            ─ Entrou neste instante. Já deve estar entrando no banho. ─ Denise olha para o corredor e coloca a toalha bem perto de Flávia. ─ A toalha está aqui. Quer que leve a roupa agora?
            ─ Deixe para depois, Denise. ─ Flávia apanha com uma das mãos a toalha, mas permanece sentada, o olhar vazio. A toalha rosada fica quase toda largada no chão. ─ Denise – Flávia fala num tom cansado. – Passe um pano úmido, caso Jacques derrame outra vez perfume pelo quarto.

A.Yunes
           
           

A Bolha


A Bolha

Abro os olhos devagar. Uma estranha sensação de pânico. A grande bolha de plástico me envolve, tira o ar. Estou dentro. Lá em cima, o céu azul, embaixo o chão duro e cru. O cinza do cimento à direita, o vermelho da terra à esquerda. No norte, o fogo; no sul, a água. Fico quieta. Mas mantenho os olhos abertos. E o vento do norte sopra, quente. Faz a bolha mover-se. Vejo o chão e o céu, o chão e o céu, devagar... Estremeço. Muito calor. De repente, o ardor é apagado pela sensação gostosa da água transparente. A mesma água que molha o plástico, e deixa uma trilha de pingos. Um caminho. E fico boiando. Agora vendo o céu, translúcido pelos pingos, e o mergulho na água azul esverdeada... e num instante, tudo é marasmo. Abro os olhos outra vez, estou no meio de uma estrada. O asfalto queimando a bolha. A respiração solta. A umidade brota nas paredes lisas. Sinto os cabelos molhados. As roupas encharcadas. A umidade toma conta de mim também. Os mesmo pingos agora dentro. Junto ao plástico. Lá fora, ao longe, a escuridão se aproxima. Não me alcança. A brisa muda sua linha. Volto a ser terra queimada. O cimento indo longe. A trilha mais temerária. Íngreme. A descida machuca as costas, a velocidade aumenta. Arrisco ser mais do que dor. E tento ver o céu, mas ele não é mais azul. Enquanto o chão deixa de ser vermelho, penso no fim. Vejo bem perto o buraco. Também do outro lado há escuridão. Não vou fugir do destino. Rendo-me ao voo da bolha, que explode no ar. Abro então realmente os olhos e suspiro fundo. A umidade escorre pelos lábios finos. Mas sorrio.

A.Yunes

Lances


Lances

Sinto a frieza do concreto nos pés descalços, e subo o primeiro degrau. A vontade é de pedir socorro mas respiro fundo e continuo. Mais um degrau. São doze até o primeiro lance. O prédio caindo aos pedaços, mais três lances e encontrarei o topo afinal.

Nos primeiros seis, uma pedra me espera. Mas não me atenho. A luz da lua ilumina a fenda, marca o cinza e distorce a cena. Quase desisto. E sei o quanto me vale o risco. Penso no feitiço e na oferenda. Penso na emoção de ser a primeira da fila horrenda. O frio nos pés, os dedos arroxeados... tudo tão lúgubre, tão insano, cruel... a meta é o outro lance.

É com as pernas pesadas que me aproximo do meio, o frio subindo, a umidade gelando as canelas... tudo tão frio, tão escuro, vejo vários olhos grudados nas fendas. Quase choro. Mas mantenho a envergadura. Sou feita de metal agora. Continuo apostando na rusga.

É o último lance. Lá em cima, eu sei, ele me espera. Talvez com a faca na mão, ou dormindo na cama de casal, ou tomando banho ou na sala, vendo tv, ou escutando música... não conto apenas que talvez ele tenha ido mesmo embora, como disse na penúltima cena, antes de me jogar escada abaixo, tornando tudo cinzento.

A.Yunes